Trigo no Centro-Oeste: Regime Hídrico define o desempenho das lavouras

Irrigação sustenta o desenvolvimento do trigo em Goiás, enquanto restrição hídrica e brusone limitam o potencial produtivo em Mato Grosso do Sul.

Publicado em 03/09/2026 09h58 . Última modificação 03/09/2026 10h33 .


O encerramento de agosto e o início de setembro de 2026 evidenciaram um cenário agrometeorológico distinto para a cultura do trigo na Região Centro-Oeste, marcado pela forte influência do regime hídrico sobre o desempenho produtivo das lavouras. Segundo o monitoramento semanal das condições das lavouras, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), no estado de Goiás permanecem no campo apenas as áreas irrigadas, majoritariamente em fase de pré-colheita. Em Mato Grosso do Sul, a intensificação das operações de colheita no fim do mês confirmou redução na produção estadual, associada à elevada incidência de brusone (Pyricularia oryzae) nas principais regiões produtoras e aos impactos acumulados da restrição hídrica ao longo do ciclo sobre os cultivos de sequeiro.

Em Goiás, a resposta das lavouras foi fortemente condicionada ao sistema de produção adotado. Nas áreas de sequeiro, a escassez de chuvas ao longo de todo o ciclo comprometeu processos fisiológicos essenciais, perfilhamento, alongamento do colmo, diferenciação floral e enchimento de grãos, resultando em rendimentos reduzidos. Conforme o levantamento da Conab, em parte dos talhões a baixa viabilidade econômica da colheita levou os produtores a destinarem as lavouras remanescentes apenas à cobertura do solo, prática relevante para a proteção da superfície, a conservação da umidade residual e a preparação das áreas para o próximo ciclo agrícola.

Nas áreas irrigadas goianas, o desempenho agronômico foi superior, reforçando o papel estratégico da irrigação como instrumento de mitigação de risco climático no Cerrado. A colheita, iniciada de forma pontual em agosto apresentou produtividades satisfatórias. O estado não apresentou registros de brusone nem de outras doenças de importância econômica no trigo sob irrigação, e as temperaturas mais baixas do inverno contribuíram para reduzir a pressão de pragas. Segundo a Conab, é a maior participação relativa do cultivo irrigado que eleva o rendimento médio estimado para Goiás nesta safra.

A importância da reposição adequada de água pode ser observada na simulação realizada pelo Sistema de Suporte à Decisão na Agropecuária (SISDAGRO), do INMET, para uma lavoura de trigo irrigado em Cristalina (GO), com emergência em 12 de maio e ciclo de 120 dias (Figura 1). Durante esse período, a necessidade hídrica estimada da cultura foi de 575,8 mm. Entretanto, a precipitação acumulada foi de apenas 69,2 mm, distribuída em treze dias, correspondendo a aproximadamente 12% da demanda hídrica. A escassez de chuva foi particularmente acentuada em julho, quando não houve precipitação, e em agosto, quando o acumulado foi de apenas 0,2 mm.

Diante da baixa contribuição das chuvas, a cultura dependeu fortemente da irrigação. Na simulação, foram aplicados 303,8 mm de água, distribuídos em doze lâminas de aproximadamente 25 mm. As aplicações foram realizadas em intervalos progressivamente menores à medida que aumentava a demanda evaporativa da cultura. Ainda assim, a quantidade e o intervalo entre as irrigações simuladas não foram suficientes para evitar completamente períodos de deficiência hídrica. Como resultado, o SISDAGRO estimou um déficit hídrico acumulado de 277,4 mm ao longo do ciclo.

Para as condições de manejo adotadas na simulação, a deficiência hídrica resultou em uma perda estimada de 39,9% do potencial produtivo até 7 de setembro. É importante destacar que esse valor está relacionado especificamente à parametrização utilizada na rodada, principalmente à quantidade das lâminas e aos intervalos entre as aplicações, e não representa necessariamente a perda observada em lavouras comerciais irrigadas por pivô central.

Figura 1: Monitoramento da cultura de trigo irrigado em Cristalina (GO), para o período de 12 de maio a 07 de setembro de 2026. Fonte: INMET/SISDAGRO.


No polo de Ponta Porã, no sudoeste de Mato Grosso do Sul, o desempenho do trigo de sequeiro foi limitado principalmente pela irregularidade na distribuição das chuvas ao longo do ciclo, e não apenas pelo volume total de precipitação. A simulação do SISDAGRO, considerando uma lavoura com emergência em 19 de maio, indicou 236,0 mm de chuva acumulada em 42 dias, enquanto a demanda hídrica estimada da cultura foi de 393,0 mm.

Embora o mês de junho tenha apresentado uma distribuição mais adequada das chuvas, com déficit hídrico reduzido, a situação se agravou em julho. Nesse mês, foram registrados apenas 19,2 mm de precipitação, enquanto a necessidade hídrica estimada do trigo atingiu 148,7 mm. Dessa forma, a quantidade de água disponível não foi suficiente para atender às necessidades da cultura em uma fase importante de seu desenvolvimento.

A partir de 21 de julho, o armazenamento de água no solo permaneceu abaixo de 10% da capacidade, indicando uma condição de forte restrição hídrica. Nesse cenário, a deficiência de água pode reduzir a expansão das folhas e, consequentemente, a capacidade da planta de interceptar a radiação solar e realizar fotossíntese. Isso limita a formação de biomassa e, nas fases posteriores, pode comprometer a formação e o enchimento dos grãos.

Assim, o principal fator responsável pela redução do desempenho da cultura foi a ocorrência de períodos prolongados de baixa disponibilidade de água durante fases de elevada demanda hídrica. Como consequência desse estresse, a simulação estimou uma perda de 54,6% do potencial produtivo (Figura 2).

Segundo o levantamento de safra feito pela CONAB, além da restrição hídrica, a combinação de temperaturas elevadas, umidade e nebulosidade favoreceu o desenvolvimento de doenças fúngicas, com destaque para a brusone, especialmente em regiões produtoras do sudoeste sul-mato-grossense. A ocorrência da doença requer atenção dos produtores e contribuiu para ajustes nas estimativas de produção à medida que a colheita avançou no fim de agosto.

Figura 2: Monitoramento da cultura de trigo de sequeiro em Ponta Porã (MS), para o período de 19 de maio a 07 de setembro de 2026. Fonte: INMET/SISDAGRO.

A previsão do modelo COSMO, para o período de 03 a 10 de setembro indica distribuição irregular das chuvas na Região Centro-Oeste, com os maiores acumulados concentrados sobre o sudoeste de Mato Grosso do Sul e o sul de Goiás. Nessas áreas, os volumes previstos variam, em geral, entre 20 mm e 50 mm, podendo atingir valores próximos de 100 mm de forma pontual, especialmente em setores do norte de Mato Grosso do Sul. Nas demais áreas da região, a tendência é de baixos acumulados, inferiores a 10 mm, ou ausência de precipitação significativa (Figura 3). Esse cenário requer atenção ao avanço das operações de colheita, pois a ocorrência de chuva, associada ao aumento da nebulosidade e da umidade relativa do ar, pode reduzir as janelas de trabalho em campo e favorecer a manutenção do molhamento foliar por períodos mais prolongados.

Diante dessa condição, recomenda-se priorizar os períodos seco para dar continuidade à colheita, fortalecer a vigilância fitossanitária e manter o acompanhamento contínuo das previsões e avisos meteorológicos emitidos pelo INMET, de modo a apoiar decisões mais seguras e otimizar as operações no campo.

Figura 3: Previsão de precipitação acumulada para a Região Centro-Oeste entre 03 e 10 de setembro de 2026, com base no modelo COSMO. Fonte: INMET.


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