OMM divulga relatório sobre a Situação do Clima na América Latina e Caribe em 2021

O relatório apresenta detalhes dos impactos climáticos extremos e das mudanças climáticas em toda a região em 2021.

Por Viviane Samara Barbosa Nonato - publicado 22/07/2022 13h00 . Última modificação 22/07/2022 15h39 .


Devido aos fenômenos extremos que afetam diariamente a América Latina e o Caribe, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) lançou, na sexta-feira (22), durante a Conferência Regional da AR III (América do Sul) sobre a Política de Dados e outras atividades paralelas, em Cartagena, Colômbia, o relatório Situação do Clima na América Latina e no Caribe: parcerias para fortalecer os sistemas de alerta precoce de múltiplos riscos. Este é o segundo ano em que a OMM produz este relatório regional anual, que fornece aos tomadores de decisão informações mais localizadas para a ação. 

O relatório apresenta detalhes dos impactos climáticos extremos e das mudanças climáticas em toda a região em 2021, como os eventos extremos relacionados à indicadores climáticos, incluindo temperaturas, calor e acidificação dos oceanos, elevação do nível do mar e geleiras, bem como sobre eventos extremos como ciclones tropicais, ondas de calor, seca, chuva intensa e ondas de frio. Também destaca os impactos das mudanças climáticas na agricultura e segurança alimentar, migração e deslocamento, desenvolvimento socioeconômico, meio ambiente e ecossistemas.  

A Conferência Regional da AR III (América do Sul) sobre a Política de Dados e outras atividades paralelas acontece entre os dias 18 e 22 de julho de 2022, e discute os impactos relacionados ao clima e água na América Latina e no Caribe e parcerias para fortalecer os sistemas de alerta precoce de múltiplos riscos.

O evento é organizado em conjunto pelas Associações Regionais da OMM para a América do Norte, América Central e Caribe (RAIV) e América do Sul (RAIII) e co-organizado pela Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (UNECLAC) e Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres (UNDRR).

O relatório é um esforço único de várias agências e Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais (NMHSs), Centros Climáticos Regionais da OMM (RCCs), instituições de pesquisa e organizações internacionais e regionais e mostra como os benefícios potenciais dos investimentos em adaptação climática, serviços climáticos e sistemas de alerta precoce superam em muito os custos.

A OMM destacou as repercussões de longo alcance para os ecossistemas, segurança alimentar e hídrica, saúde humana e pobreza.

As taxas de desmatamento foram as mais altas desde 2009, um golpe tanto para o meio ambiente quanto para a mitigação das mudanças climáticas. As geleiras andinas perderam mais de 30% de sua área em menos de 50 anos. A “Mega seca do Chile Central” é a mais longa em pelo menos 1.000 anos.

“O relatório mostra que os riscos meteorológicos e hidrometeorológicos, incluindo secas, ondas de calor, ondas de frio, ciclones tropicais e inundações, infelizmente levaram à perda de centenas de vidas, danos graves à produção agrícola e infraestrutura e deslocamento humano”, disse o secretário-geral da OMM, Prof. Petteri Taalas.

“Espera-se que o aumento do nível do mar e o aquecimento dos oceanos continuem a afetar os meios de subsistência costeiros, turismo, saúde, alimentação, energia e segurança hídrica, especialmente em pequenas ilhas e países da América Central. Para muitas cidades andinas, o derretimento das geleiras representa a perda de uma fonte significativa de água doce atualmente usada para uso doméstico, irrigação e energia hidrelétrica. Na América do Sul, a contínua degradação da floresta amazônica ainda está sendo destacada como uma grande preocupação para a região, mas também para o clima global, considerando o papel da floresta no ciclo do carbono”, disse o Prof. Taalas.

“O agravamento das mudanças climáticas e os efeitos agravantes da pandemia de COVID-19 não apenas impactaram a biodiversidade da região, mas também paralisaram décadas de progresso contra a pobreza, a insegurança alimentar e a redução da desigualdade na região”, disse o Dr. Mario. Cimoli da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

“Enfrentar esses desafios e seus impactos associados exigirá um esforço conjunto. Não importa como seja tomada, a ação deve ser informada pela ciência. O relatório Situação do Clima na América Latina e no Caribe, o segundo desse tipo, é uma fonte crítica de informações científicas para a política climática e a tomada de decisão. A CEPAL continuará desempenhando um papel ativo nessa disseminação de informações meteorológicas e climáticas para promover parcerias, melhores serviços climáticos e políticas climáticas mais fortes na América Latina e no Caribe”, afirmou.

O INMET participou da Conferência e foi representado pelo chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais (AAI), Gustavo Motta, na ocasião representando o diretor do Instituto, Miguel Ivan Lacerda de Oliveira, membro do Conselho Executivo e representante permanente do Brasil junto à OMM.


Principais conclusões:

  • Temperatura: A tendência de aquecimento continuou em 2021 na América Latina e no Caribe. A taxa média de aumento da temperatura foi em torno de 0,2°C/década entre 1991 e 2021, comparado a 0,1°C/década entre 1961 e 1990.
  • As geleiras nos Andes tropicais perderam 30% ou mais de sua área desde a década de 1980, com uma tendência de balanço de massa negativo de -0,97 m equivalente de água por ano durante o período de monitoramento 1990-2020. Algumas geleiras no Peru perderam mais de 50% de sua área. O recuo das geleiras e a correspondente perda de massa de gelo aumentaram o risco de escassez de água para a população e os ecossistemas andinos.
  • O nível do mar na região continuou a subir em um ritmo mais rápido do que globalmente, especialmente ao longo da costa atlântica da América do Sul, ao sul do equador (3,52 ± 0,0 mm por ano, de 1993 a 2021), no Atlântico Norte subtropical e no Golfo do México (3,48 ± 0,1 mm por ano, de 1993 a 1991). A elevação do nível do mar ameaça uma grande parte da população, que vive em áreas costeiras – contaminando aquíferos de água doce, causando desgaste às linhas costeiras, inundando áreas baixas e aumentando os riscos de tempestades.
  • A “Mega Seca Central do Chile” continuou em 2021, com 13 anos até o momento, esta é a seca mais longa nesta região em pelo menos mil anos, agravando a tendência de seca e colocando o Chile à frente da crise hídrica da região. Além disso, a seca de vários anos na Bacia Paraná-La Plata, a pior desde 1944, afetou o centrossul do Brasil e partes do Paraguai e Bolívia.
  • Os danos causados pela seca na Bacia do Paraná-La Plata à agricultura reduziram a produção agrícola, incluindo soja e milho, afetando os mercados agrícolas globais. Na América do Sul em geral, as condições de seca levaram a uma queda de -2,6% na safra de cereais 2020-2021 em comparação com a temporada anterior.
  • A temporada de furacões no Atlântico de 2021 teve o terceiro maior número de tempestades já registradas, 21, incluindo sete furacões, e foi a sexta temporada consecutiva de furacões no Atlântico acima do normal. Algumas dessas tempestades impactaram diretamente a região.
  • Chuvas extremas em 2021, com valores recordes em muitos lugares, levaram a inundações e deslizamentos. Houve perdas substanciais, incluindo centenas de mortes, dezenas de milhares de casas destruídas ou danificadas e centenas de milhares de pessoas desabrigadas. Inundações e deslizamentos nos estados brasileiros da Bahia e Minas Gerais levaram a uma perda estimada de US$ 3,1 bilhões.
  • O desmatamento na floresta amazônica brasileira dobrou em relação à média de 2009-2018, atingindo seu nível mais alto desde 2009. Em comparação a 2020, 22% a mais de área florestal foi perdida em 2021.
  • Um total de 7,7 milhões de pessoas, na Guatemala, El Salvador e Nicarágua, experimentaram altos níveis de insegurança alimentar em 2021, com fatores contribuintes incluindo impactos contínuos dos furacões Eta e Lota no final de 2020 e impactos econômicos da pandemia de COVID-19.
  • Os Andes, o nordeste do Brasil e os países do norte da América Central estão entre as regiões mais sensíveis às migrações e deslocamentos relacionados ao clima, fenômeno que aumentou nos últimos 8 anos. A migração e o deslocamento populacional têm múltiplas causas. As mudanças climáticas e os eventos extremos associados são fatores amplificadores, que aumentam os fatores sociais, econômicos e ambientais.
  • A América do Sul está entre as regiões com maior necessidade de fortalecimento dos sistemas de alerta precoce . Os sistemas de alerta precoce de múltiplos perigos (MHEWS) são ferramentas essenciais para uma adaptação eficaz em áreas em risco de clima, água e extremos climáticos.



O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC mostra como os padrões de chuva estão mudando, as temperaturas subindo e algumas áreas estão passando por mudanças na frequência e gravidade de eventos climáticos extremos, como chuvas fortes.

Os dois grandes oceanos que cercam o continente –  Atlântico e Pacífico – estão se aquecendo e se tornando mais ácidos como resultado do excesso de dióxido de carbono, enquanto o nível do mar também vem aumentando.

Infelizmente, o impacto maior está reservado para a região, pois tanto a atmosfera quanto o oceano continuam a mudar rapidamente. O fornecimento de alimentos e água poderá ser interrompido. A infraestrutura necessária para a manutenção e o desenvolvimento das cidades estão cada vez mais em risco.

A saúde e o bem-estar serão afetados, juntamente com os ecossistemas naturais. A Amazônia, o nordeste do Brasil, América Central, Caribe e algumas partes do México provavelmente verão maiores condições de seca, enquanto os impactos de furacões podem aumentar na América Central e no Caribe. As mudanças climáticas ameaçam sistemas vitais dessa região, como as geleiras dos Andes, os recifes de corais da América Central, a floresta amazônica, que já se aproximam de condições críticas sob o risco de danos irreversíveis.

Além dos impactos da pandemia de COVID-19, na região, o Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres registrou um total de 175 desastres durante o período 2020-2022. Destes, 88% são de origem meteorológica, climatológica e hidrológica. Esses eventos foram responsáveis ​​por 40% das mortes registradas relacionadas a desastres e 71% das perdas econômicas.

Para reduzir os impactos por desastres relacionados ao clima e apoiar as decisões de gestão de recursos e melhores resultados nessa região, são necessários serviços climáticos, sistemas de alerta de ponta a ponta e investimentos sustentáveis, porém ainda não estão adequadamente implantados.

É importante fortalecer a cadeia de valor dos serviços climáticos em seus componentes  – incluindo sistemas de observação, dados e gerenciamento de dados, melhor previsão, fortalecimento dos serviços climáticos, projeções e sistemas de informações climáticas.

Previsão e  Avisos de chuva em Maio de 2022 em Recife(PE).


O INMET é um órgão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e representa o Brasil junto à Organização Meteorológica Mundial (OMM) desde 1950.

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