De La Niña a um possível El Niño muito forte: veja a evolução das projeções em 2026

Nova projeção mensal da NOAA (através do Climate Prediction Center) sobre o status do El Niño/La Niña foi publicada hoje, quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Publicado em 10/09/2026 10h17 . Última modificação 10/09/2026 15h15 .

De acordo com a última atualização do NOAA/CPC, em agosto, as anomalias da temperatura da superfície do mar (TSM) ultrapassaram os 3°C no Pacífico Equatorial Leste. Esse aumento da TSM, juntamente com os outros índices de medição, indicam uma intensificação constante do El Niño até o final de 2026. Além disso, a probabilidade, no Hemisfério Sul, de um evento muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027, supera os 90%, enquanto há probabilidade de 75% de ser o evento mais forte registrado desde 1950, durante o trimestre outubro–novembro-dezembro de 2026. 

Os boletins mensais do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (CPC/NOAA), órgão meteorológico norte-americano, permitem verificar como as projeções para o El Niño–Oscilação Sul (ENOS) se modificaram ao longo de 2026, evidenciando a necessidade de atualização contínua das previsões climáticas. A sequência dos boletins permite acompanhar a transição de uma condição de La Niña para a fase de neutralidade e, posteriormente, o desenvolvimento e a intensificação de uma condição de El Niño, além das mudanças nas previsões para os meses seguintes.

As condições de La Niña e El Niño se alternam ao longo do tempo, intercaladas por períodos de neutralidade, em um ciclo associado ao ENOS. Dessa forma, à medida que novas informações sobre o estado do oceano e da atmosfera são incorporadas aos modelos, as projeções são atualizadas e podem apresentar mudanças significativas ao longo dos meses.

O ENOS é um fenômeno natural associado à interação entre o oceano e a atmosfera no Pacífico equatorial. O fenômeno apresenta três fases: El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico equatorial central e leste; La Niña, marcada pelo resfriamento dessas águas; e a fase de neutralidade, quando não são observadas condições características de El Niño/La Niña. Essas fases não ocorrem de maneira regular, mas se alternam de forma irregular, geralmente em intervalos de dois a sete anos.

As alterações associadas ao ENOS modificam os padrões de circulação atmosférica, temperatura e precipitação em diferentes partes do planeta. Por essa razão, embora seja um fenômeno natural, suas diferentes fases podem exercer influência significativa sobre o clima de diversas regiões, inclusive do Brasil.

A caracterização do ENOS, portanto, depende da análise conjunta das condições oceânicas e atmosféricas. Como essas condições evoluem ao longo do tempo, o acompanhamento do fenômeno também requer a avaliação contínua das projeções climáticas, que permitem estimar a probabilidade de manutenção, transição ou estabelecimento de determinada fase do ENOS nos meses seguintes. Essas projeções são atualizadas regularmente à medida que novas observações são incorporadas aos modelos, podendo apresentar mudanças tanto na intensidade quanto na probabilidade de ocorrência de El Niño, La Niña ou condições neutras. A evolução dessas previsões ao longo de 2026 permite compreender como as expectativas para o comportamento do ENOS foram sendo modificadas.

Evolução das projeções do ENOS em 2026

8 de janeiro de 2026 — La Niña ainda estava presente

Em janeiro, a condição observada ainda era de La Niña, e a NOAA mantinha o status de Aviso de La Niña. A previsão indicava 75% de probabilidade de transição para condições neutras entre janeiro e março. Naquele momento, a neutralidade era considerada o cenário mais provável até pelo menos o final do outono do Hemisfério Sul. A NOAA já identificava um aumento das chances de ocorrência de El Niño em horizontes mais longos, mas destacava a elevada incerteza associada a essas projeções.

12 de fevereiro — cenário ainda favorecia neutralidade

Em fevereiro, a fase La Niña ainda permanecia como condição observada, mas os sinais indicavam que esse episódio se aproximava do fim. A NOAA apontava 60% de probabilidade de transição para condições neutras entre fevereiro e abril, enquanto a probabilidade de manutenção da neutralidade entre junho e agosto chegava a 56%. Naquele momento, portanto, o cenário ainda favorecia a neutralidade, sem indicação de alta confiança para o estabelecimento do El Niño.

12 de março — NOAA inicia Vigilância de El Niño

Em março, a La Niña ainda permanecia como condição observada, mas já apresentava sinais de enfraquecimento. Ao mesmo tempo, as perspectivas para os meses seguintes começaram a mudar de forma mais significativa. Apesar de manter o Aviso de La Niña, a NOAA entrou em estado de Vigilância de El Niño (El Niño Watch). A probabilidade de formação do El Niño entre junho e agosto aumentou para 62%, e as projeções indicavam a possibilidade de que o fenômeno persistisse pelo menos até o final de 2026.

9 de abril — La Niña termina e possibilidade de El Niño aumenta

Em abril, as condições observadas passaram para neutralidade, caracterizando um período de ENOS-neutro. Com o encerramento da La Niña, a NOAA retirou o Aviso de La Niña, mas manteve o estado de Vigilância de El Niño. A probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho chegou a 61%, e as projeções indicavam a possibilidade de continuidade do fenômeno pelo menos até o final do ano.

14 de maio — probabilidade de El Niño sobe para 82%

Em maio, as condições observadas ainda eram classificadas como ENOS-neutro, mas o aquecimento do Pacífico Equatorial já se tornava mais evidente. O índice semanal Niño 3.4 atingiu +0,4 °C, aproximando-se do limiar utilizado como referência para condições de El Niño. Diante da evolução das condições oceânicas e atmosféricas, a NOAA passou a indicar 82% de probabilidade de estabelecimento do El Niño entre maio e julho. Para dezembro de 2026 a fevereiro de 2027, a probabilidade de permanência do fenômeno chegou a 96%.

11 de junho — El Niño é oficialmente declarado

Em junho, o El Niño já era a condição observada, ainda em estágio inicial de desenvolvimento. Após confirmar o estabelecimento das condições do fenômeno, a NOAA alterou o status para Aviso de El Niño (El Niño Advisory). O índice semanal Niño 3.4 atingiu +0,7 °C, valor que, considerando a magnitude da anomalia naquele momento, situava-se na faixa associada a um El Niño fraco. Apesar disso, as projeções já indicavam um rápido fortalecimento do fenômeno em direção ao final de 2026 e ao verão 2026/2027 do Hemisfério Sul.

9 de julho — El Niño continua se fortalecendo

Em julho, o El Niño já apresentava intensidade moderada e continuava em processo de fortalecimento. O índice semanal Niño 3.4 alcançou +1,2 °C, valor associado a um episódio de intensidade moderada. A NOAA informou que o fenômeno continuaria se intensificando até o final do ano e estimou em 97% a probabilidade de sua permanência até o início do outono de 2027 no Hemisfério Sul. Embora a tendência de intensificação já estivesse claramente estabelecida, naquele momento o fenômeno observado ainda não havia alcançado a faixa de forte intensidade.

13 de agosto — Probabilidade superior a 90% de El Niño muito forte

Em agosto, o El Niño seguia em rápida intensificação, com os valores observados na região Niño 3.4 próximos da transição entre as faixas de intensidade moderada e forte. A média mensal do Niño 3.4 referente a julho chegou a +1,4 °C, enquanto outras regiões do Pacífico apresentavam aquecimento ainda mais expressivo, com o Niño 1+2 atingindo +2,9 °C. A anomalia de +1,4 °C na região Niño 3.4 encontrava-se no limite superior da faixa normalmente associada a um El Niño moderado e próxima do patamar de forte intensidade. Ao mesmo tempo, as projeções indicavam o rápido fortalecimento do fenômeno. A NOAA passou a indicar probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante o a primavera de 2026 e o verão de 2026/2027 no Hemisfério Sul.

10 de setembro — Probabilidade de 75% de ser o evento mais forte registrado desde 1950

O El Niño se intensificou ainda mais em agosto, com as anomalias da temperatura da superfície do mar excedendo +3,0 °C no Pacífico Equatorial Leste. Com exceção do índice Niño 4, que diminuiu para +0,1 °C, os valores dos demais índices Niño aumentaram, atingindo +1,8 °C na região Niño 3.4, +2,5 °C na região Niño 3 e +3,4 °C na região Niño 1+2. O El Niño continuará se intensificando até o final de 2026. A NOAA indicou probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027 no Hemisfério Sul e probabilidade de 75% de ser o evento mais forte registrado desde 1950, durante o trimestre outubro–dezembro de 2026. Com um evento dessa magnitude, aumentam as chances de ocorrência de impactos consistentes com o El Niño.

Em resumo, o El Niño está se intensificando, com mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um evento muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027 no Hemisfério Sul.


Por que o cenário projetado se altera ao longo do tempo?

A evolução das previsões ao longo de 2026 não representa uma contradição, mas reflete o processo natural de atualização das informações disponíveis. Essa é uma característica fundamental da ciência meteorológica e climática: as previsões são atualizadas à medida que novas informações são incorporadas.

No início do ano, havia maior incerteza sobre a evolução das condições do Pacífico Equatorial do que nos meses seguintes. Além das limitações naturais dos modelos em representar a complexa interação oceano-atmosfera, as condições observadas ainda não forneciam sinais suficientemente claros sobre a evolução do fenômeno. Com o avanço de 2026, o aquecimento das águas superficiais e subsuperficiais se intensificou, enquanto a atmosfera passou a responder a esse aquecimento de forma cada vez mais consistente com o desenvolvimento do El Niño. Com a incorporação de novas observações, os modelos também passaram a apresentar maior concordância, permitindo ajustes nas projeções e aumentando gradualmente a confiança nos cenários indicados.

É por isso que previsões realizadas com muitos meses de antecedência devem ser interpretadas em termos de probabilidades e tendências, e não como indicações de algo que necessariamente irá acontecer. À medida que novas observações são incorporadas e a evolução do sistema se torna mais clara, as projeções podem ser ajustadas, com aumento ou redução das probabilidades inicialmente estimadas.

Quais impactos o El Niño pode trazer para o Brasil?

De acordo com o Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026–2027, divulgado em 1º de setembro pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), em conjunto com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), as previsões climáticas para o trimestre setembro-outubro-novembro indicam diferentes padrões de chuva e temperatura entre as regiões do país, associados à evolução esperada do fenômeno.

Na Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, e em áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul, há maior probabilidade de volumes de chuva acima da média histórica. Em sentido oposto, as Regiões Norte e Nordeste apresentam maior probabilidade de chuva abaixo da média. Áreas do Brasil Central e do Sudeste, incluindo partes de Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo, também apresentam maior probabilidade de chuva abaixo da média.

As temperaturas, por sua vez, apresentam tendência de permanecer acima da média em grande parte do território nacional. Isso não impede, entretanto, a ocorrência de episódios pontuais de queda de temperatura associados à passagem de massas de ar frio, especialmente durante o período de transição entre o inverno e a primavera.

Nas regiões central e norte do país, a combinação entre temperaturas elevadas e períodos prolongados de estiagem pode favorecer condições de maior risco de propagação do fogo, principalmente caso ocorra atraso no início da estação chuvosa. Na Amazônia Legal e no Pantanal, onde o período entre setembro e novembro normalmente marca a transição entre a estação seca e a chuvosa, o cenário indica possibilidade de prolongamento das condições de estiagem em algumas áreas, com redução da disponibilidade hídrica e aumento da vulnerabilidade aos incêndios florestais.

Na Região Sul, por outro lado, a maior probabilidade de chuva acima da média merece atenção para a possibilidade de episódios de chuva intensa, cheias e inundações, especialmente no Rio Grande do Sul. O próprio Painel destaca a necessidade de acompanhamento contínuo das condições meteorológicas e hidrológicas diante desse cenário.

É importante, entretanto, compreender os limites dessas previsões. As previsões climáticas representam tendências para períodos de vários meses e não permitem determinar antecipadamente quando ocorrerá uma tempestade, qual cidade será atingida por um evento extremo ou qual será o volume de chuva registrado em um episódio específico.

Além disso, nem todo evento meteorológico extremo ocorrido durante um episódio de El Niño é necessariamente causado pelo fenômeno. O El Niño modifica os padrões de circulação atmosférica e pode aumentar ou reduzir a probabilidade de determinados comportamentos de chuva e temperatura. Entretanto, a ocorrência e a intensidade de eventos específicos dependem também da atuação e da interação de diferentes sistemas meteorológicos, como frentes frias, ciclones, sistemas convectivos, massas de ar e outros mecanismos atmosféricos.

Da mesma forma, um El Niño mais intenso não significa automaticamente impactos mais severos em todas as regiões do Brasil. Episódios mais intensos podem aumentar a probabilidade de determinados impactos, mas sua ocorrência e magnitude dependem da interação entre diferentes fatores atmosféricos e oceânicos, além das condições já estabelecidas em cada região. O próprio INMET ressalta que um El Niño mais intenso não implica, necessariamente, impactos mais severos, embora possa aumentar a probabilidade de determinados eventos.

Por isso, o acompanhamento das condições meteorológicas precisa ocorrer em diferentes escalas de tempo. A previsão climática permite identificar tendências para os próximos meses; a previsão do tempo acompanha a evolução da atmosfera nos próximos dias; e, diante da possibilidade de condições meteorológicas adversas, o INMET emite avisos meteorológicos, que são atualizados conforme a evolução dos sistemas atmosféricos.

Assim, diante da perspectiva de intensificação do El Niño nos próximos meses, a principal recomendação é acompanhar continuamente as informações oficiais. O cenário climático é importante para a preparação e o planejamento, mas são o monitoramento contínuo, as previsões do tempo e os avisos meteorológicos que permitem acompanhar a evolução de eventos específicos e antecipar situações potencialmente severas.

A presença de um El Niño forte ou muito forte exige atenção, mas não permite atribuir automaticamente ao fenômeno todos os eventos extremos que possam ocorrer no país. Compreender essa diferença é fundamental para interpretar corretamente a informação climática e utilizá-la como ferramenta de preparação, prevenção e tomada de decisão.


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