Chuvas intensas na Região Sul reacendem alerta fitossanitário para as lavouras de trigo

Safra de inverno avança sob condições de elevada umidade.

Publicado em 14/07/2026 16h27 . Última modificação 14/07/2026 16h46 .

De acordo com o monitoramento das lavouras realizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a semeadura de trigo no país já alcançou 94,7% da área prevista. No Rio Grande do Sul, os trabalhos de semeadura atingiram, em média, 87% da área estimada, com predominância de lavouras nos estádios de desenvolvimento vegetativo inicial e perfilhamento. No Paraná, os elevados volumes de chuva registrados no início do mês de julho nas regiões oeste e sudoeste aumentaram a pressão fitossanitária, favorecendo a ocorrência de doenças fúngicas e manchas foliares. Em Santa Catarina, o tempo seco tem contribuído para a melhoria das condições operacionais, favorecendo a germinação e a emergência do trigo.

Nesses estados, as lavouras encontram-se predominantemente entre as fases vegetativa e reprodutiva, período em que ocorre aumento da demanda hídrica devido ao intenso crescimento das plantas. Como consequência, as culturas tornam-se mais sensíveis à ocorrência de déficits hídricos. Até o momento, o desenvolvimento das lavouras tem sido favorecido pela distribuição regular das chuvas e pelas temperaturas mais amenas registradas na região. O município de Cruz Alta (RS) (Figura 1), exemplifica as condições meteorológicas predominantes durante o desenvolvimento da cultura na região noroeste do Rio Grande do Sul.

As precipitações ocorreram de forma regular durante a primeira metade do período, com os maiores acumulados registrados em 29/06 (19,9 mm), 02/07 (15,2 mm), 22/06 (14,9 mm), 28/06 (12,6 mm) e 19/06 (11,9 mm). A partir do início de julho, observou-se uma redução das chuvas, configurando um período seco prolongado, com volumes próximos de zero até o dia 13/07. As temperaturas máximas variaram entre 8,9 °C e 23,0 °C, enquanto as mínimas apresentaram maior variação, com destaque para os dias 16/06/, 04/07 e 07/07, quando foram registrados os menores valores do período, de 2,0 °C e 0,2 °C, respectivamente. De acordo com a Emater/RS-Ascar, as baixas temperaturas e a ocorrência de geadas de fraca intensidade favoreceram o perfilhamento das plantas, sem causar danos expressivos às lavouras da região.

Para os próximos cinco dias, a previsão indica uma elevação gradual das temperaturas. A partir de 15/07, as máximas tendem a aumentar progressivamente, superando 27 °C entre os dias 17 e 18/07, enquanto o tempo deverá permanecer estável até o sábado (18/07). Esse cenário de aquecimento gradual, associado à baixa probabilidade de chuva no curto prazo, reforça a necessidade de monitoramento da umidade do solo, especialmente em função do aumento da demanda hídrica das lavouras durante essa fase de desenvolvimento.

Figura 1: Precipitação Acumulada (mm), Temperatura Máxima (°C) e Temperatura Mínima (°C) para o período de 10 de junho a 19 de julho de 2026 em Cruz Alta (RS). Fonte: SISDAGRO

No entanto, a preocupação aumenta diante da previsão para os próximos quinze dias, que indica o desenvolvimento de uma área de baixa pressão sobre a Argentina, associada ao transporte de ar quente e úmido pelo Jato de Baixos Níveis (JBN). No início da semana, essa configuração deverá favorecer o retorno das chuvas em grande parte do Rio Grande do Sul e no extremo sul de Santa Catarina, onde os volumes acumulados podem ultrapassar 150 mm (Figura 2). Esse cenário eleva o potencial para a formação de tempestades, motivo pelo qual o INMET publicou aviso de tempestade de nível laranja, válido para sexta-feira e sábado, em grande parte do Rio Grande do Sul. Nas demais áreas da Região Sul, o tempo deverá permanecer firme.

Os elevados volumes de chuva previstos tendem a dificultar operações de manejo, como adubação de cobertura, aplicação de defensivos e o trânsito de máquinas, além de aumentar a favorabilidade à ocorrência de doenças fúngicas, especialmente em áreas com longo período de molhamento foliar e elevada umidade relativa do ar. Esses efeitos podem comprometer tanto o desenvolvimento das lavouras quanto a eficiência das práticas de manejo adotadas no período.

Os impactos também se estendem à pecuária. As chuvas intensas podem reduzir a qualidade das pastagens, dificultar o manejo dos rebanhos e elevar o risco de problemas sanitários associados ao excesso de umidade no ambiente. Em áreas sujeitas a inundações, há ainda potencial para perdas de infraestrutura rural, danos a estradas vicinais e dificuldades no transporte de insumos e da produção agropecuária.

Dessa forma, embora as precipitações contribuam para a reposição da umidade do solo e para a recuperação das reservas hídricas, volumes muito elevados concentrados em poucos dias tendem a aumentar o risco de impactos negativos sobre a agricultura gaúcha, principalmente em razão da saturação do solo, da interrupção das operações de campo e da maior favorabilidade à ocorrência de doenças nas culturas de inverno. Nesse contexto, tornam-se fundamentais o monitoramento contínuo das condições das lavouras e a adoção de práticas de manejo no momento adequado, de forma a mitigar riscos fitossanitários e preservar o potencial produtivo da cultura do trigo na região.

Figura 2: Previsão de precipitação acumulada (mm) para a Região Sul nos próximos 15 dias, obtida a partir do modelo Global Forecast System (GFS). Fonte: INMET.

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